Por Pablo Casado
INTRO
É de se admirar o modo como as coisas acontecem em Maceió. Para o bem ou para o mal. Pelo intencional ou causal. No fim, lembrar de Murphy é o óbvio. Mas voltemos ao começo e relatemos o ocorrido. Na verdade, ao que quase não ocorreu.
ANSIEDADE QUE AVISA, AMIGA É
Não dá mesmo. Deixar as coisas para última hora é o mal de mais de 90% do brasileiro e eu, certamente, estou entre eles. Faltavam duas semanas para o Encontro de RPG & Anime, a ser realizado na unidade do Poço do Sesc, e eu ainda não tinha fechado a editoração eletrônica dos fanzines que fiquei na tara de lançar no evento. Na verdade, até havia impresso uma boneca inicial de alguns deles, mas problemas com tamanhos de certas fontes me levaram novamente ao Corel.
O atraso ferrou com os meus planos de divulgação, que incluíam ir a algumas faculdades, cursos de idiomas, colégios, e nos locais onde as entradas para o Encontro eram vendidas para colar/distribuir cartazes e/ou mesmo deixar alguns exemplares de amostra. Além disso, a grana a ser investida nas cópias das edições havia ficado desfalcada de uma hora pra outra – (aprenda uma coisa: ser um artista de quadrinhos [e] desempregado, com namorada, e que tem o mínimo de apreço por uma vida social, nunca vai andar com o bolso folgado. A não ser que você venha de uma família rica. Vai saber.)
Se com duas semanas de prazo as coxas já estavam bem em cima, com uma você é capaz de fazer no joelho mesmo. E, deixando de lado todos os revezes até aquele momento e negando a possibilidade de um grande fracasso, as novas bonecas foram impressas, o orçamento para as cópias havia sido restituído e uma divulgação (mal) dirigida via Internet parecia ter dado conta de chegar aos olhos e ouvidos certos. Agora era segurar aquele friozinho besta na barriga e preencher a cabeça de coisas boas, positivas e todo aquele tipo de auto-ajuda desnecessária que todo ateu/agnóstico deve recorrer pra não se trair e chamar por Ele.
Mal sabia que o tal frio não vinha da minha barriga…
SABE AQUELA DE “E NO MEU COLO CAI PELÉ”?
O clima na cidade não tava dos melhores desde o início da semana. Numa hora, o dia amanhecia fechado e chovendo feio, coisa que irrita principalmente de segunda a sexta. Daí não dava duas horas pro céu abrir e um sol de raios bem abertos nos lembrar que estamos num lugarzinho bem tropical. Aquilo era um aviso e não me toquei. Na verdade, acho que ninguém que queria aproveitar o feriadão fora de casa.
Então, com tudo pronto, restava aguardar a chegada do sábado, o primeiro dia de Encontro. E ele chegou com um mau-humor cinza nebuloso, pronto para chorar suas lamentações sobre todos nós, maceioenses, que só queriam um pouco daquele velho sol amarelo que o Homem de Aço tanto gosta, e daí aproveitar uma praia, um boteco… Mas o sábado não estava afim de fazer qualquer concessão. Ficou todo frio, 24 horas.
O que me fez lembrar do último Encontro, no qual também estive, mas sem fanzine algum: era um sábado, mas distintamente diferente. Fazia sol e não se tratava de um fim de semana prolongado por um feriado na sexta ou na segunda, muito menos numa quinta, o que provavelmente forçaria a sexta a ser “emprenssada”. Não, não. Era um fim de semana como outro qualquer, e o programa de muito rpgista e fã de anime foi o de ir ao Sesc e entupir o lugar. Era difícil andar entre as mesas de tanta gente jogando, de conversar com tantas vozes altas. Assistir qualquer um dos desenhos em exibição estava fora de opção: as filas que se formavam na entrada da única sala do evento me desanimaram.
Tudo bem, não estou falando de algo que costuma se ver em convenções do tipo em São Paulo, por exemplo. Mas, para os padrões e para o que se espera do público em Maceió, era gente o suficiente para dizermos “tá cheio”. O oposto do que eu vi no primeiro dia do Encontro deste ano, no sábado 29 de abril. Num dia ora chuvoso ora nublado em um fim de semana estendido, parecia que a mesma audiência que agitou o Sesc na edição anterior do evento em 2005 havia preferido ficar em casa. Fosse por causa do clima ou do preço de entrada por dia – R$ 4,00 –, do qual vi uns e outros chiarem. A estrutura do evento em si parecia a mesma das outras edições: espaço para mesas de rpgistas novatos e veteranos, exibição de animes, sorteio de mangás e outras coisas, stands das lojas locais dos gêneros envolvidos, mais a apresentação de duas bandas de j-pop.
O fator tempo + preço de entrada relativamente caro (?) parecia ter desanimado uma presença mais massiva do público. Ou o simples fato de ser um feriadão e parte deles ter viajado, como comentei com meu xará e colega de fanzinagem Pablo Peixoto. O que importa é que, principalmente pela manhã, o movimento no Sesc foi ameno. A tarde a coisa parecia ter melhorado, mas o público estava tão chove e não molha quanto o céu sobre nossas cabeças.
QUEIMANDO ATÉ A ÚLTIMA PONTA… DE PACIÊNCIA
Aportei no Sesc pelas 8. Uma hora antes do Encontro realmente começar. A organização pediu para que eu chegasse nessa faixa para me ajudar com o espaço onde eu colocaria os fanzines para venda. Pensei que teria umas duas mesas para o serviço - e que foi o que pedi -, mas acabei com o stand que chegamos a usar no evento anterior; o que foi bem legal. Dividi meu espaço com o xará, fanzineiro e ótimo desenhista Pablo Peixoto. Ele apresentava a segunda edição de seu fanzine Ilusões. Eu botei na banca as edições de Urbana Bárbara e Terra do Nunca Love Song Five, lançadas este ano em oportunidades diferentes, e as novas publicações: Don Caraleone é Mau!/Esparta, um zine flip/flap com artes de Denis Pacher e Luciano Kars; e Mariposa, dos meus camaradas André Dantas e Jaguar.
Stand pronto, sorriso na cara e… cadê o povo?
A estrutura do Sesc não ajudou: a sala de exibição onde passavam animes, que na minha cabeça chamaria mais pessoas, ficava na parte posterior do lugar. Longe da quadra aberta, onde estavam as mesas e stands. Pior para quem pensou em vender algo, pois o público do RPG não deu as caras até o meio da tarde, quando, meio desempolgados, Pablo e eu praticamente não havíamos vendido quase nada da nossa produção. Claro, houveram divertidas exceções.
O movimento havia aumentado relativamente até o momento em que decidi zarpar do lugar, lá pelas 6 e tantas, cansado de fome, de sono e sentindo falta de certos braços morenos femininos. A primeira banda a tocar no evento começou a passar o som e todos que estavam no Encontro tomavam seus lugares para ver o pessoal detonar no som. Eu teria que deixar para uma próxima. Não tinha mais cigarros comigo. Nem mais vontade de bancar o empreendedor quadrinhista alternativo.
Não mais naquele dia.
COISINHAS LEGAIS QUE A GENTE GUARDA
Não que as baixas vendas, o clima, a falta de público e qualquer outra coisa que eu não me lembre agora tenham deixado meu único dia no Encontro de RPG & Anime necessariamente azedo. Não foi dos melhores, mas podia ser bem pior.
Como eu comentei com o Pablo, os zines provavelmente começariam a sair do stand quando algum corajoso viesse, sacasse sua carteira e levasse uma ou outra edição do que estávamos vendendo. Aos olhos do resto dos visitantes, isso podia ser o convite ideal. Porque, aqui em Maceió, acho que a cultura da fanzinagem – fora de certos centros acadêmicos, principalmente dos de jornalismo – é vista como uma novidade estranha. E não que fosse a primeira vez que eu lançava um zine: cheguei a me meter com publicações em prosa de uma página que distribuía entre amigos e conhecidos gratuitamente, pelo simples prazer de saber se conseguia agradar com minhas ficções e que tipo de reações elas causavam. Foi um período produtivo e que me deu segurança para migrar para os roteiros de Quadrinhos. Mas eles eram feitos e dados como aquela bala gostosa que sobra no bolso e alguém com a garganta seca ou mau-hálito sempre aparece pra te pedir.
Chegar junto e jogar um agá malicioso parecia assustador tanto para mim como creio que fosse para o meu xará. Logo, tivemos que aguardar e ver no que dava.
Um grupinho de três adolescentes, provavelmente todos de camisa preta, ficaram indo e vindo ao stand. Paravam diante dos quatro fanzines que eu vendia e um dos sujeitos folheava e folheava a edição da Urbana Bárbara. Da terceira ou quarta vez que eles apareceram, fui manso e falei com o tal rapaz, o que tinha cabelo grande, que ele tava namorando a capa da revista e se não ia levar. “Não, não”, ele logo se adiantou a falar. “Tava mostrando o desenho pra eles. De todos, é o único bem feito.” Num evento em que uma das principais atrações eram as exibições de desenho japonês, eu não podia lá me espantar. Coisas de nichos da cultura pop.
Não que isso signifique que as outras edições não tiveram sua cota de atenção…
Três jovenzinhas roqueiras se aproximaram e ficaram olhando sem tocar em nada. A da ponta esquerda olhou para a minha pasta, que estava aberta e mostrando uma página maior de Terra do Nunca Love Song Five e o pôster não-utilizado do Don Caraleone é Mau!. Foi para este último que ela olhou, levou uma das mãos a boca e deu um risinho como se tivesse visto a primeira pornografia da vida dela. Ela então cutucou a amiga do meio, apontou pro desenho e saiu. A amiga olhou por quase 10 segundos até entender a piada do nome, deu o mesmo risinho e as três saíram. Fiquei besta de orgulho pela ficha ter caído pra elas.
E essa coisa de não entender a mensagem é perigosa.
Dois garotinhos, acho que irmãos, apareceram no stand e foram levando um a um os zines que Pablo e eu estávamos vendendo. Creio que foi um deles que, antes de comprar qualquer coisa, sacou a edição que fiz em parceria com o Felipe Cunha e disse: “Que massa! Terra do Nunca!”. E eu não queria nem imaginar a cara da mãe desses meninos se ela lesse o fanzine e descobrisse de que tipo de Terra do Nunca se tratava. E que eles nunca perguntem os pais como chegar nela. Ai.
A imagem mais legal das vendas e contato imediato dos zines foi com uma família, os primeiros a comprar as edições, que chegou e folheou tudo. Estavam o Pai, a Mãe, a Filha e um Filho. De verdade. Eles ficavam alternando, e eu pensando que era só folheação típica. Até que o pai sacou a carteira e levou meus quatro zines e o do Pablo. Isso foi ainda pela manhã, creio que antes das 11. Rolou uma sensação interessante. Mais ainda quando avistei a família sentada numa mesa metros adiante, lendo tudo que tinham comprado no evento, incluindo os fanzines… e fiquei me perguntando que tipo de reação eles tinham a cada história. Naquela hora do dia, ainda tinha sobrado um último Souza Paiol pra consumir e aplacar minhas ansiedades mentais.
O negócio era memorizar os detalhes. Esses poucos. Mas significantes.
INDO
Quando uma das bandas que tocaria no Encontro começou a se aquecer no palco, notei que as duas lojas que ocupavam stands já tinham encerrado suas atividades, e até mesmo o Pablo havia recolhido seus zines. O Emerson [Magalhães] havia dado as caras do nada cerca de uma hora antes pra colar alguns cartazes do pessoal que está tentando trazer o live de vampiro de volta à cidade – não me pergunte, eu não entendo de nada desse universo paralelo. Conversamos um tanto, até que eu decidi recolher os fanzines e pular fora.
Eram 6 e tantas e a fome apertava, assim como minha resistência física de ficar parado num lugar por muito tempo sem fazer nada. Claro, tinha a ver também com o fato dos cigarros terem acabado e do público estar com a atenção completamente voltada para a banda no palco. Tirando o Emerson, outros amigos que foram prestigiar os zines e fazer companhia durante o Encontro – e os cito com grande apreço: Anderson, André, Joel e Markus – já haviam picado a mula, pois tinham lá afazeres pessoais naquela noite de sábado.
Decidido a ir e voltar no dia seguinte, fui para não mais voltar.
No domingo, uma chuva torrencial alojou-se sobre Maceió da madrugada até o fim da noite. Imaginei que, por mais vontade de ir ao evento que estivessem, boa parte do público não ia se arriscar a sair de casa naquelas condições. Tava naquele climinha de ficar no sofá ou na cama, de lençol até o queixo, vendo filme. E não dava pra sair dos braços da minha namorada naquele tempo, mesmo se eu quisesse.
Na segunda, as coisas abriram um pouco mais no céu. Mas parecia que estavam só dando um tempinho lá encima pra depois voltarem com tudo. Aproveitei a brecha e tomei o rumo de casa. E, mesmo com o teto do mundo permanecendo nublado até o começo da tarde, o que me permitiria descer ao Sesc sem maiores problemas, decidi não dar mais um passo. Antes de qualquer coisa, liguei para um dos meus conhecidos, o Rafael, que estava por lá, e perguntei como estava o movimento. Ele me disse que não muito diferente do sábado. Então fiquei em casa, espancando o teclado do micro. Comendo bobagens. Lendo.
Não era como eu imaginava que seria, mas não foi de todo mal.
AGRADECIMENTOS
A NAPALM!, na figura de Pablo Casado, agradece a Manoel Messias e ao Encontro de RPG & Anime pela oportunidade e atenção, a Marcus Ramone e ao Universo HQ pela amizade e apoio de sempre, aos sites que também divulgaram nossos zines, aos amigos presentes e interessados distantes, e um obrigado muito especial a todos os artistas envolvidos, que deram o melhor do seu talento nas histórias.